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Quando Ana me deixou – essa frase ficou na minha
cabeça, de dois jeitos – e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente
uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu
pensava assim: quando Ana me deixou – e essa não-continuação era a única espécie
de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia
nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado
pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo – esse espaço branco sem Ana
– de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou
não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos
jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu
apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas
trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como
Ana dentro dela.Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do
apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No
horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite
podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos
edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala
do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os
dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e
o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e
podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha
mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski
nua, pergunrando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a
campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma dessas criancinhas
meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair
correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu
continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava
a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas
mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.Depois que Ana me deixou –
não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é
o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada
dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda,
luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa
bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao
contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso
para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de
verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver
a tinta das letras no bilhete de Ana – depois que Ana me deixou, como ia
dizendo, dei para beber, como é de praxe.De todos aqueles dias seguintes, só
guardei três gostos na boca – de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem
água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa,
durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber
no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava
nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava
na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque
ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes
com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e
chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem
açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de
publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos
dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca
do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de
desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a
certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do
outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso
nunca aconteceu.O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de
vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio
daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o
quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme
como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em
plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia
evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu
me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com
muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de
Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha,
enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até
que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o
dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos
muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça
amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado
no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência – e só
sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi
a resposta.Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito – nem
como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito,
misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava perdir por
telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na
mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e
guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite
anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou
eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho,
pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria
matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele
quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se
tornado a minha depois que Ana me deixou.Mandei para a lavanderia os lençóis
verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana – e seria cruel demais para
mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se
transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro
de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um
forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a
trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais
poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana
tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se
Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana
tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas
vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia,
ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos
da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas.
Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth,
das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho,
e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia,
Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera,
Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15
Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas
brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos
jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro,
pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para
depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a
cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu
nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia
gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um
cheque cinco estrelas, sem cruzar ¿ então eu me jogava de bruços na cama e pedia
perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me
abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu
naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento
em plena tempestade, sem salva-vidas.Depois que Ana me deixou, muitos meses
depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot,
pêndulos, vidências, números e axés ¿ ela volta, garantiam, mas ela não voltava
– e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos
junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com
promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos
para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do
novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem,
Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi,
halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e
esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então,
que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarajá ou Monte Verde e
de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura,
inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, transponível e natural em seu fio
dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira
como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira
sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol
e o windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf.
Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi
se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de
Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e
sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser
lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser
sedutor com aquele charme todo especial de
homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a
delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana.
Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca
ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que
Ana me deixou.Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto
tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no
horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos
de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os
inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a
estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que
este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo
momento – aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu
permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o
nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no
pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo,
descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma
das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com
que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não
consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana,
vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, arrevogáveis. Que
Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e
finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre
então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala
do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para
levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para
que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um
aquário, e desapareça sem deixar marcas.

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